O inventário do lixo aqui em casa

Mesmo com a diminuição do tamanho da família moderna, segue crescendo o volume do lixo gerado nas unidades familiares. Você já parou para ver a quantidade de lixo diário que sai da sua casa? Pois, essa constatação me leva a fazer-lhe a segunda pergunta, caro leitor: – Qual é a ferramenta que acabou se tornando imprescindível na cozinha moderna? E vamos emendar logo a terceira pergunta: – você separa o lixo seco do orgânico dentro da sua casa?

Antes de prosseguir, resolvi ir até a minha cozinha e realizar um inventário do lixo aqui de casa. Não estava no roteiro de produção do texto, foi decisão de inopino. Volto já!
xingandoVou correr um duplo risco:  

1. descobrir “cobras e lagartos”;

2. ou ouvir “cobras e lagartos” da minha esposa, pois penso que se eu noticiasse a minha intensão, ela não concordaria.

Antes, um pouco de teoria.

Lixo doméstico

O lixo doméstico é um problema cíclico, onde diversos materiais têm diversos tempo e processo de produção. Podemos começar pela embalagem do pão, no café da manhã de hoje. Assim, respeitados os tempos, nossos móveis e as próprias paredes da nossa casa, um dia serão lixo. Vamos nos limitar ao resíduo diário, tais como restos de alimentos, embalagens, papeis, etc…Com tal definição de termos já posso afirmar que esse lixo nasce na sua lista de supermercado.

Pense comigo, você vai ao mercado com um interesse específico e junto com ele vem embalagens, aliás, muita embalagem. Dois exemplos representativos:

  • tem um bombom achocolatado que é vendido em doze unidades (sendo que cada uma delas com a respectiva embalagem em papel laminado) acondicionadas numa bandeja de papelão que é revestida com papel celofane;
  • bolachas do tipo água e sal, montadas em colunas que sustentadas por papel celofane, se torna um volume. Três volumes destes são agrupados numa embalagem de papel celofane totalmente colorido e com os dizeres de praxe.

Pois, haja tesoura na cozinha para manobrar com este material e outros tantos, utilizados para conter aquilo que especificamente necessitamos. Pronto, respondi a uma das perguntas: cozinha sem uma tesoura na gaveta dos talheres não assegura que dominemos as tais embalagens de hoje. Em tempo: haja cesta do lixo diário!

A quantidade de lixo diário que sai da sua casa, começa a ser determinada na sua lista de compras e passa pela opção de produtos com menos embalagens ou feitas com material que degrada mais fácil no meio ambiente, seja reciclável, isto é, tenha um canal de reciclagem já estabelecido; você sabe como recolher e para aonde e como fazer para encaminhar o reaproveitamento daquilo que veio junto com o seu alimento e, que não serve mais.  Compare as figuras abaixo:

papel de pão          plástico para pão

Regra de ouro

Depois do cuidado e seleção nas compras, a regra de ouro é separar o lixo seco do molhado. Começa dentro de casa e vai para diferentes contêineres (na cidade aonde eu moro o sistema de coleta é feito dessa forma) na sua calçada. Sem os cuidados iniciais e sem a correta armazenagem no respectivo contêiner, o recolhimento do lixo, que agora é coletivo, dará encaminhamento errado para o material e o cenário abaixo se manterá como triste realidade de muitos municípios brasileiros.

lixao parnaiba1

A regra pode e deve ser expandida para a separação de vidros, metais, plásticos e papéis. Fomentar, incentivar e difundir a formação de cooperativas de reciclagem é exercício da cidadania.

Quanto a incursão pela cozinha da minha casa posso dizer que sobrevivi, caso contrário não teria terminado o texto. Acabei convencido de que teremos que repensar algumas rotinas por aqui. Moramos em apartamento e isso requer grandes adaptações, especialmente considerando que esse tipo de morar é a grande explosão nas áreas urbanas.

Vou fazer mais observações, testar adaptações e depois socializo as minhas experiências nos próximos textos.

 

 

 

Manual do proprietário

Hoje é comum a expressão “com o manual na mão, eu monto qualquer coisa”. Tem gente que já pergunta se tem ” o manuel”, de tão usual que se tornou essa ajuda do fabricante.

Esta é uma antiga ferramenta de pós venda que, em função das mudanças nas políticas de produção, sofreram variações de conteúdo e de apresentação, ao longo do tempo.

O conteúdo do manual é definido ao tempo do projeto de engenharia do produto portanto, ainda dentro da indústria, seguindo uma política de produção e venda conforme os objetivos organizacionais traçados nos campos financeiro, social e ambiental. O modelo mais clássico que se tem é o manual do proprietário de veículo automotor. Ele é completo e detalhado no funcionamento e na regulação da manutenção do bem adquirido. No Brasil a depreciação e exaustão desse bem é de 20% ao ano, ou seja, contabilmente em cinco anos o bem se extingue; no mercado é comum se ver veículos automóveis com dez anos de vida útil. Em boa parte isso se deve ao plano de manutenção traçado pelo fabricante. A figura abaixo mostra o manual de uma carro de 1965. O meu carro é do ano de 2005 e são pequenas as diferenças entre ambos os documentos e àqueles do corrente ano.

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A ausência de diferenças decorre da não mudanças nas políticas de produção (não confunda com tecnologias), onde o aumento da vida útil e a confiabilidade na marca sempre foram o norte do mercado produtor, além da própria capacidade de compra do mercado consumidor. Ainda assim, se observa no Brasil, o crescente passivo de uma destinação dos resíduos de automóveis que não mais podem circular e que, a despeito do prolongamento da vida, não se dispõe de um sistema reverso de logística, capaz de absorver a demanda e aliviando o meio ambiente da carga de tais resíduos.

Atualmente, existem alguns bens disponíveis no mercado, cujo manual se restringe a uma única folha de papel impresso com as principais instruções de uso e cuidados de segurança. Os endereços para eventuais manutenções nem sempre se confirmam. A garantia do produto é de um ano e você não encontra quem faça qualquer reparo. O manual é singelo e não tem instruções de manutenção pelo simples motivo de que o custo de produção é muito baixo: compre um novo e bote fora o velho “estragado”. Pergunta-se: fora aonde? Sem sistematização e sem orientação no manual, fatalmente o velho habitará um terreno baldio.

Por outro lado, existe uma nova geração de bens e fabricantes que emitem um manual tradicional singelo que contém as instruções básicas de operação e cuidados, mas conta com  um endereço de internet, onde a manutenção é muito bem detalhada. Minha lavadora/secadora de roupas é um exemplo. Já fiz alguma manutenção mais aprofundada acompanhado por um tutorial em vídeo, onde a peça referida era mostrada na tela do celular, passo a passo.

manualA figura ao lado mostra alguém estudando o manual de um bem que comprou ou irá comprar. Eu já vivi esta experiência, conforme relatei acima.

A minha preocupação que persiste, apesar da modernidade do manual, é que ao encerramento programado ou não, do prazo de vida útil do produto, ainda não terei um processo sistematizado de descarte do “velho” para o reaproveitamento na própria indústria.  Essa é uma enorme de uma oportunidade de melhoria nos manuais de proprietário:

  • fazer nele constar as medidas especiais e de logística para o descarte;
  • inventário de materiais construtivos e respectivos volumes;
  • nível estimado de redução da emissão de CO2 com as medidas.

Como você pode observar os novos manuais seriam medidas realmente inovadoras que, além de envolver na questão da preservação ambiental a todos os segmentos sociais, serviriam de suporte fático para a concessão de certificação do tipo “selo verde”.

A coleta seletiva da embalagem

A embalagem é um daqueles indicadores que são quase universais. Ela serve, ao mesmo tempo, para monitorar o nível de desenvolvimento econômico e o de educação para o desenvolvimento social.

A Associação Brasileira de Embalagens² (ABRE) diz :

A embalagem reflete a cultura e estágio de desenvolvimento de uma nação e seu aprimoramento vem acompanhando a evolução da sociedade desde os tempos primórdios, se adequando à sua nova organização, padrões, necessidades.

No mundo dos administradores existe uma colocação clássica a respeito da embalagem: Afinal, a embalagem agrega valor ao produto, ou não? Pertenço ao grupo que pensa que não, pois ela tem a função de proteger para que não se perca o valor agregado, até que ocorra o consumo.

Na verdade, nos cabe é melhorar continuamente a gestão organizacional para qualificar também os resultados ambientais. A divisão de responsabilidades ambientais entre a sociedade e a empresa não se trata de uma linha demarcatória: é um contínuo de ações entrelaçadas, que se inicia na engenharia da produção e do produto, passa pelo consumo, pela destinação correta da embalagem e retorno energético à indústria de base.

Segundo a política ambiental brasileira, uma empresa sustentável tem que gerar resultados financeiros, sociais e ambientais. São as três interfaces com o tecido social, onde a coleta seletiva é uma ação proativa nesse contexto das competências concorrentes entre a empresa e a sociedade. A figura abaixo¹ mostra o principio de tudo, no retorno ao ambiente.

coleta seletiva em fazendas

Assim, qualquer um dos grupos de materiais mostrados na figura pode representar a forma de organização, capacitação e expressão da vontade social quanto a sustentação do ambiente. A criticidade do desafio de manutenção do meio cresce na medida em que aumenta a aglomeração dos seres humanos em grandes, médias e pequenas cidades. Vamos eleger, pela popularidade, a embalagem do tipo garrafa pet, no grupo do plástico para demonstrar uma parcela dos trabalhos de reciclagem no Brasil. Todos os dados são da Associação Brasileira da Indústria do Pet (ABIPET)³, que se encontra na nona rodada de censo, realizada em 2012.

A base geográfica dos dados é o Brasil com a sua divisão clássica em regiões, onde são identificadas as empresas que trabalham com a reciclagem de PETs, as quais foram convidadas a responder a um questionário.

Atualmente já foi atingido o índice de 58,9% de reciclagem, com 766 cidades brasileiras (são 5570 municípios no país) que dispõem de serviço de coleta seletiva. Um outro aspecto importante é a solidez das empresas de reciclagem onde 95% delas tem mais de cinco anos de atividade ininterrupta e firme no negócio. A foto abaixo mostra a fase compressão e do do enfardamento, segundo a classificação do tipo de material. A partir daqui o material segue para a indústria para transformar em matéria prima, sendo que mais da metade (65%) gera os flakes, que são pedaços quase na condição de espuma e cristais, seguindo inclusive para a indústria química. Outros 25% voltam a ser garrafas.para não alimentos.

pronto

Este segmento é um mercado muito ativo e concorrido mas que ainda tem muito espaço para se expandir.

Na medida que é algo muito ligado à cultura da sociedade, o processo não tem a velocidade de desenvolvimento que se espera dele. A educação para a coleta seletiva é a chave que destrava o volume de negócios.

Quanto ao desenvolvimento econômico do país, a embalagem serve para medir o grau em que ele ocorre, pois quanto mais se consome, mais se produz que, por sua vez, necessita de mais embalagens para conter, movimentar e transportar. Se queremos saber o tamanho da crise de um país, basta que se conheça a curva de desempenho dos fabricantes de embalagem de papelão e de PET.

Referências

  1. www.sestr.com.br
  2. http://www.abre.org.br/
  3. http://www.abipet.org.br/

http://www.abre.org.br/wp-content/uploads/2012/07/cartilha_meio_ambiente.pdf